Quando uma dieta se torna um transtorno alimentar?

Psicologia Terapias Autoajuda Comportamento 10 fevereiro de 2020

Você sabia que uma dieta pode se transformar em um transtorno alimentar? A entrevista do CEO do Twitter, Jack Dorsey, provocou discussões sobre o assunto.

O CEO do Twitter, Jack Dorsey, apareceu recentemente em um podcast de fitness para falar sobre seus hábitos alimentares e de exercícios, que incluem jejum de fim de semana, restrição da ingestão de alimentos durante a semana a uma refeição por dia e caminhada regular de oito quilômetros.

Dorsey alegou que sua rotina o levou à um maior foco e eficiência (e também a se sentir como se estivesse tendo alucinações). Seus padrões alimentares foram inspirados em dietas de jejum intermitentes, que ganharam popularidade nos últimos anos e devem ser mais pesquisadas. Depois que as notícias da entrevista de Dorsey se espalharam, as pessoas se preocuparam sobre a possibilidade de Dorsey ter um distúrbio alimentar.

Na maioria dos casos, os profissionais não possuem as informações detalhadas necessárias para responder a perguntas de diagnóstico sobre figuras públicas. Além disso, especular sem conhecimento adequado é tipicamente considerado antiético.

Embora  não possa falar das especificidades do status diagnóstico de Dorsey, vale a pena desmistificar o processo que os profissionais de saúde mental geralmente usam para fazer esse tipo de avaliação com as pessoas que tratam.

Quais informações os profissionais de saúde mental usam para diagnosticar um distúrbio alimentar?

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mental - Quinta Edição - define um distúrbio alimentar como 'um distúrbio persistente de comportamento alimentar ou relacionado à alimentação, que resulta no consumo ou absorção alterados de alimentos e que prejudica significativamente a saúde física ou o funcionamento psicossocial'.

São vários diagnósticos diferentes de transtorno alimentar, incluindo anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno da compulsão alimentar periódica.

1. Presença

Os tipos de sintomas que os profissionais procuram incluem :

- Restrição alimentar (ex. limitação a certas quantidades de calorias)

- Compulsão alimentar (ex. comer grandes quantidades de comida enquanto experimenta uma sensação de perda de controle)

- Comportamentos compensatórios inadequados (ex. auto vômito induzido, abuso de laxantes)

- Preocupação com o peso (ex. pensar tanto a ponto de interferir na concentração)

- Outros (ex.  basear o senso de valor na forma do corpo).

2. Frequência

Se alguém compulsivamente come três vezes por ano, isso não constituiria, por si só, um distúrbio alimentar. Enquanto isso, a compulsão alimentar três vezes por semana excede o critério de frequência para transtorno da compulsão alimentar ou bulimia nervosa.

3. Persistência

Geralmente os sintomas duram entre semanas ou meses.

4. Efeitos negativos

Para serem diagnosticados com um distúrbio alimentar, os comportamentos relacionados à alimentação devem interferir de maneira significativa na vida social do indivíduo, como a capacidade de se sair bem na escola ou de ter relacionamentos de sucesso, por exemplo.

5. Outras explicações excluídas

Os sintomas podem ser também explicados por outra condição médica ou mental (exemplo, diminuição do apetite devido a depressão, abuso de substâncias ou problemas gastrointestinais) ou uma explicação cultural / religiosa (por exemplo, jejum durante o Ramadã). Nesse caso, seria impreciso chamá-lo de distúrbio alimentar.

Como os profissionais de saúde mental coletam informações de diagnóstico?

Se um profissional identificar que alguém está passando por vários sintomas frequentes, persistentes, causando comprometimento e não pode ser explicado por causas alternativas, um distúrbio alimentar é tipicamente diagnosticado.

1. Rastreio

As avaliações para distúrbios alimentares geralmente começam com uma ferramenta de triagem, que é uma maneira breve de verificar se alguém tem sintomas que precisem de uma exploração mais aprofundada.

2. Questionários

Se uma triagem revelar a presença de sintomas de transtorno alimentar, uma medida mais aprofundada deve ser empregada. Após a conclusão de um questionário mais abrangente, como o Questionário de Exame para Transtorno Alimentar (EDE-Q), as respostas são totalizadas e pontuadas para determinar se os sintomas estão dentro de um intervalo típico em comparação com a população em geral ou se estão dentro do mesmo padrão clínico mais próximo de pessoas com distúrbios alimentares.

3. Entrevistas

Entrevistas estruturadas como o Exame para Transtorno Alimentar (EDE; a versão da entrevista do EDE-Q) são outro método para coletar informações de diagnóstico. As entrevistas envolvem o terapeuta fazendo perguntas e as acompanhando para garantir que haja uma compreensão clara das experiências da pessoa. Entrevistar outras pessoas (por exemplo, parceiros, pais, amigos) sobre os comportamentos alimentares da pessoa pode ser útil para obter uma imagem mais completa.

4. Exames médicos

Os distúrbios alimentares podem causar sérios problemas de saúde física. Os médicos são as pessoas mais apropriadas para avaliar se houveram efeitos negativos no corpo (por exemplo, desequilíbrios eletrolíticos, alterações da frequência cardíaca, funcionamento de órgãos).

Se você está enfrentando problemas que não ultrapassam o limiar do distúrbio, ainda pode solicitar uma avaliação formal de um profissional. Existem tratamentos eficazes para os sintomas do transtorno alimentar disponíveis para pessoas com diferentes níveis de gravidade e a intervenção precoce pode salvar vidas.

Por Kathryn Gordon Ph.D.

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